Heráldica

Um dos mais antigos registos das armas da cidade de Tavira consta da iluminura do Foral dado pelo rei D. Manuel I no ano de 1504. Aí se vê um desenho representando uma ponte de três arcos sobre um rio em que navega um barco com três mastros. Sobre os encontros da ponte ergue-se, em cada um deles, uma torre com duas ordens de ameias. Mais três torres se levantam sobre o passadiço, sendo a do meio mais alta que as colaterais. Um escudo nacional sobrepõe-se a cada uma das torres dos encontros.

Seguindo a ordem do tempo, encontramos depois a pedra de armas da cidade incrustada na frontaria da Igreja da Misericórdia do ano de 1551. Examinando este símbolo, verificamos ainda hoje que nele figura uma ponte de um só arco, flanqueada por duas altas torres, sobre um rio em que navega um navio de antanho, de um único mastro com vela recolhida, guindada. Sobre o passadiço da ponte, ao meio dele, outra torre de dois andares. E de um e outro lado, entre a torre central e as duas referidas laterais, o escudo nacional com as cinco quinas, tal como o desenho da folha de entrada do Foral de 1504.

No século XIX, com a Revolução Liberal, a ponte perde a torre central, ficando apenas com as dos dois encontros. O navio mantém os três mastros iniciais e o escudo passa a sobrepujar o passadiço. É assim que consta da pedra de armas que ainda hoje encima a fachada central do andar nobre dos Paços do Concelho, munida de cartela com data de 1837.

Mas outra Revolução, a de 1926, havia de providenciar a substituição dos brasões municipais. Para o caso de Tavira chamaram para o efeito um conhecido nome da heráldica, Afonso de Dornellas. No parecer que apresentou à Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, em sessão de 26-11-1932, indicou o modo como deveriam passar a ser constituídas as armas, o selo e a bandeira de cidade de Tavira:

”de prata com uma ponte de sete arcos de vermelho, entre duas torres do mesmo(vermelho), iluminadas de negro, saínte de rio de duas faixas ondadas de azul e prata, seguidas de um mar de quatro faixas ondadas de prata, alternadas de três de verde. Vogando neste mar, um barco de negro realçado de ouro, vestido de prata e mastreado e encordoado de negro. Em chefe uma branca coroada de ouro e uma cabeça de carnação negra com turbante de prata. Coroa mural de prata de cinco torres. Bandeira quarteada de oito peças de branco e negro. Listel branco com os dizeres a negro.”

E assim foi estabelecido, por Portaria n.º 7.539 de 03 de março de 1933.

Afonso de Dornellas, não se tendo apercebido da existência dos desenhos do antigo brasão de armas de Tavira, guiou-se, para propor um novo, pelas descrições do anterior feitas por alguns autores que apenas referiam a ponte entre duas torres e o navio sobre as ondas. A ponte simbolizava, na sua opinião, “a importância que a ponte tem para a vida local”, e o navio “dá a ideia da sua importância comercial alfandegária”. Mas Afonso Dornellas considerando que “devemos tornar mais completos os selos municipais” deu à ponte o número de arcos que ela realmente hoje tem e acrescentou na parte superior (designada por chefe) uma cruz - espada da Ordem de Santiago, usada pelos cavaleiros que tomaram Tavira aos mouros, e duas cabeças – uma branca, do “Rei Cristão”, e outra, negra, do “Chefe Mouro”.

Fonte: Anica, Arnaldo Casimiro, Tavira e o Seu Termo. Memorando Histórico, Câmara Municipal de Tavira, 1993, pp. 273-275.

 

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