Artesanato

 

O artesanato é uma atividade corrente na Serra do Caldeirão. A maioria das produções dão continuidade a uma tradição longamente enraizada, embora os seus produtos possam ter mudado de função e encontrado novas formas. Nos últimos anos, de facto, surgiram propostas diferentes, que procuram afirmar-se no mercado e ver reconhecido o seu valor. As atividades tradicionais são: a tecelagem, a cestaria, os bordados e rendas, ladrilhos, tijolo burro e telhas tradicionais.

Entre as produções com um significado económico relevante no passado, destaca-se a tecelagem. Comum a toda a serra, a atividade assumiu uma particular importância no Nordeste Algarvio. A tecelagem sempre foi uma atividade marcadamente feminina, com os homens a assegurarem algumas fases complementares no tratamento da lã ou do linho. Nas novas oficinas, criadas por tecedeiras mais jovens saídas de cursos de formação profissional, criam-se novos produtos e modelos, destinados a consumidores urbanos. Embora ainda se encontrem belos exemplares de mantas, alforges e toalhas tradicionais, torna-se cada vez mais difícil arranjar linho e lã de ovelha artesanais: as fiadeiras escasseiam e os cardadores quase desapareceram.

A cestaria, especialmente em cana, representava outra atividade muito difundida. Os cestos eram instrumentos de trabalho essenciais nas tarefas agrícolas e no armazenamento e transporte de produtos. Próxima da cestaria é a arte dos produtores de cadeiras de tabus ou de vassouras, que ainda hoje existem. Voltando à cestaria, a atividade não se limita à utilização da cana, há muito que existe o aproveitamento de fibras vegetais como o esparto, a pita e a palma.

A par do trabalho em empreita e esparto, as mulheres da Serra sempre se dedicaram aos bordados e rendas, embelezando pacientemente lençóis e toalhas de rosto em linho. Faziam-se as lérias, as rendas de bilros, as bainhas abertas, as franjas entrançadas, o ponto de cruz, o bordado a matiz... um mundo de segredos femininos, de cumplicidades intergeracionais. Entretanto, ao lado das peças habituais, surgiu uma produção inovadora que recorre à juta como matéria-prima de base. As peças são menos exuberantes mas revelam o mesmo cuidado na caracterização das figuras e um grande vigor de conceção. Atualmente, o trabalho artesanal feminino tem-se desenvolvido em pequeníssimas empresas, criadas a partir de cursos de formação profissional, muitos deles organizados no âmbito do Programa de Conservação do Património Cultural. Qualquer bocadinho de madeira, pedaço de raiz, resto de cana servia e serve para reproduzir, amorosamente, instrumentos de trabalho e seres da paisagem quotidiana.

São ainda de referir alguns ofícios em via de desaparecimento, como é o caso dos albardeiros ou dos latoeiros. Eram ofícios aprendidos com um mestre e tinham a vantagem de se poder desenvolver dentro da casa. O mestre ensinava o essencial da profissão, do resto encarregava-se os anos de trabalho.

Uma atividade merece referência: a produção de ladrilhos, tijolos de burro e telhas artesanais, tradicional na freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo.

A cerâmica de construção já foi mais pujante no passado, mas a procura crescente de materiais tradicionais de virtudes ecológicas reconhecidas e de valor estético incontestável abre respetivas de crescimento e expansão para este setor de atividade. As peças "do tempo mourisco", são feitas em barro extraído no próprio local de produção e a sua confeção continua a ser essencialmente manual, embora alguns dos telheiros já tenham adotado processos de fabrico mais industrializados.

A serra e o barrocal algarvio são ricos em árvores, cujos frutos são excelentes para a produção de aguardentes de figo, alfarroba e medronho. As aguardentes, ainda produzidas na sua maioria de forma artesanal, podem ser saboreados nos estabelecimentos de restauração e bebidas existentes no concelho.

Para além do artesanato descrito, no concelho pode ainda saborear a doçaria, o mel, o pão, os queijos e enchidos.

 

Como se faz...

Aguardente

O medronho amadurece quando o Inverno está à porta. Este é um fruto de cores quentes, cresce facilmente, gosta de humidade e prolifera na serra algarvia. Apanha-se de outubro a novembro, colocado de molho durante 40 dias com um pouco de água, é depois amassado e tapado. De seguida, a massa é colocada num alambique para cozer, tapa-se e coloca-se barro na tampa para não entrar o ar.

Quando o mosto vem ao de cima, a borbulhar, o medronho está pronto para ser destilado. Acende-se a fornalha, alimentado primeiro com lenha fina e depois com troncos mais grossos, até ferver. Do outro lado da serpentina (onde se faz a destilação), passando por banho de água fria para arrefecer, está a selha onde a aguardente começa a "pingar", com cerca de 23-25% vol álcool.

Um dos requisitos para um bom medronho é uma fermentação equilibrada e evitar a mistura na mesma talha com frutos de diversas apanhas.

A apanha e a destilação são feitas por toda a família.

Antigamente, a aguardente de medronho acompanhava as refeições. Actualmente, é bebida "de um só trago" para "afastar o frio" num pequeno cálice.

Em Tavira, para além do medronho, é também produzida a aguardente de figo, alfarroba e vários licores, elaborados a partir de produtos algarvios, como é o caso da alfarroba, do poejo, do limão, da bolota, figo, etc.

 

Cestaria

Onde há ribeiras, há canaviais e onde há canas, há cestos...

A cana é apanhada de janeiro a meados de fevereiro, e empinadas para não se estragarem.

Após este processo inicial, é necessário tratar as canas para uso. Numa primeira fase as canas são peladas, rachadas e raspadas. Começa por se fazer o fundo, utilizando uma cana mais grossa de forma a ficarem mais resistentes. De seguida, a parede do objeto, a(s) asa(s) e por último os debruns, este feito com uma cana mais fina.

Refira-se que consoante o tamanho do objeto e a sua finalidade, assim é o tipo de cana selecionada: sendo as mais grossas utilizadas para utensílios de trabalho e tarefas agrícolas e as mais finas, designadas por "maneirinhas" utilizadas para a lida doméstica.

Nos cestos de cana, como canastras e condessas, usa-se cana verde, para poder ser vergada com maior facilidade.

Tendo em vista várias utilidades, os objetos eram utilizados para armazenamento e transporte de produtos, para levar a "merenda" (comida) para a "lida" (trabalho) agrícola ou doméstica.

É de salientar ainda o uso nas cestarias do vime, saisso, vergas e outras fibras, as quais crescem junto aos cursos de água.

Após ser colhido e escolhido, o vime é cozido em fogo lento, em baraços enrolados dentro de grandes caldeirões. Depois, vai secar ao ar livre e demolhar.

Todos os cestos começam por se fazer o fundo "o alvorada", do qual partem as guias e os prumos.

A cestaria é por este facto considerada um trabalho de homens.

 

Telhas/ Ladrilhos/ Tijolos

São consideradas peças do "tempo mourisco", em barro de forma manual embora alguns telheiros tenham adotado processos de fabrico mais industrializados.

Começa-se por lavar e peneirar o barro para retirar as impurezas (pedras, troncos, folhas, etc.). Depois, o barro é amassado para ficar firme e homogéneo e vai para o forno. No fabrico de telhas mouriscas, tijolo burro e ladrilhos utiliza-se a casca de amêndoa e troncos de azinho para manter o forno quente durante cerca de 15 horas.

A telha mourisca é utilizada em telhados, isola sem abafar, torna o ambiente mais claro, luminoso e é mais resistente.

O tijolo burro é considerado um bom isolante, sendo também utilizado para decoração de interiores.

O ladrilho "tijoleira" é fresco, adequado para regiões do Sul como o Algarve, onde o Verão é bastante quente. É também de fácil limpeza.

 

Latoaria

Na latoaria aproveita-se todo o tipo de latas para se fazerem os objetos, desde latas de salsichas, bebidas, sumos, conservas, etc.

Começa-se por desenhar o objeto. Corta-se a lata definindo as partes. Para alguns é necessário limar, para ficarem mais perfeitos.

Por fim, os objetos são pintados, e alguns são soldados.

A lata é usada para fazer objetos como: baldes, cântaros, chaminés, flores, lanternas, pássaros, cata ventos etc.

O latoeiro é um ofício em extinção.

 

Linho

A tecelagem como outros ofícios antigos tem passado de geração em geração, tendo o tear pertencido a bisavós, avós e pais.

O linho semeia-se em outubro, é mondado para se retirar as ervas e arrancado em junho.

O linho é em primeiro lugar sacudido para sair a linhaça (semente do linho), alagado durante nove dias num ribeiro ou num tanque, de forma a ficar todo coberto de água, depois fica a secar, é gramado ou espadelado e ripado.

O linho é fiado à roca, como antigamente, ou à máquina, e sai finalmente a meada. Numa última fase, é feita uma barrela com cinza de loendro, como tradicionalmente, ou colocado o linho numa panela com sabão azul e água a ferver durante uma hora.

Finalmente, o linho é lavado na ribeira e dobado na dobadoura, ficando pronto para se começar a tear o tecido pretendido.

Os maiores teares podem tecer até 230 cm de largura e 130 m comprimento. São dois dias de preparação e pode tecer-se até 3 m diários. Os teares mais pequenos são utilizados para convencionar "écharpes", tapetes, panos, etc.

As peças com formas ou desenhos são cardadas e fiadas numa roda antiga.

Depois é enrolada nas lançadeiras com uma dobadoura. Nos padrões em relevo puxa-se a trama para fora com um arame, de quatro em quatro ou de cinco em cinco fios e nos de losangos e texturas utiliza-se a urdidura.

As pessoas que trabalham o linho são vulgarmente conhecidas por fiadeiras.

 

Empreita

Antes de utilizada a palma terá de ser colhida, escolhida e posta a secar ao ar. As palmas crescem próximo das ribeiras e apanham-se entre os meses de maio e agosto.

Começa-se por colocar as palmas durante um mês numa sombra de árvore, para não apanharem muito sol (apenas o sol da tarde). Durante este período, de quatro em quatro dias vão-se virando as palmas para que todas apanhem sol. Depois são colocadas em casa, num local de pouca luz, dentro de uma saca de papelão, caixa de madeira ou alcova.

A palma é de fácil execução. Primeiro ripa-se, para se obter diferentes larguras que irão determinar se a empreita é de 1ª, 2ª ou 3ª qualidade. Começa-se então a entrançar, consoante o trabalho pretendido. Será ainda necessário, determinar a resistência do objeto, para se decidir o número de voltas de trança necessárias (1 ou 2).

A palma de melhor qualidade é colocada num banho de enxofre para clarear, permanecendo aí, cerca de trinta horas.

Os trabalhos de empreita de palma surgiram em consequência da necessidade de embalar e transportar o figo, a amêndoa e a alfarroba, para os armazéns e para ajudar na "lida" (trabalho). Os produtos que eram utilizados para o trabalho, eram feitos com palma mais grossa, pois ofereciam maior resistência e durabilidade.

Refira-se também a utilização do esparto, para atividades pesqueiras, principalmente na faina do atum.

Mais tarde, surgiram os trabalhos decorativos, como esteiras, tapetes, miniaturas, entre outros, feitos com palma fina.

A empreita de palma tem-se adaptado aos novos tempos e ás necessidades do consumo atual.

 

Saiba mais:

ASTA – Associação de Arte e Sabor de Tavira

Tem como objetivo a preservação, desenvolvimento e defesa do artesanato de autor e a melhoria das condições para a criação e produção de peças de artesanato ou produtos agro-alimentares, desde que utilizem matérias-primas e/ou elementos naturais.

Aproveite e visite a loja da ASTA, na qual estão expostos e comercializados produtos e artigos dos seus associados, situada na calçada da Galeria 

Contactos
Telefone: 281 381 265
Correio eletrónico: asta_11@sapo.pt
Web: www.asta.pt 

 

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