História

Tavira da Antiguidade aos nossos dias

Cidade por grandeza dos tempos idos, Tavira está situada no lado oriental do Algarve, a meia distância entre o Cabo de Santa Maria e a foz do rio Guadiana. Dista dois quilómetros do mar e está implantada nas margens do estuário do rio Gilão, ao abrigo da restinga que protege a Ria Formosa, de Faro até Cacela. Tal localização foi fator do seu desenvolvimento e apogeu, e depois da sua letargia e enfraquecimento. Tavira é, essencialmente, uma cidade de estuário e a sua História está, naturalmente, ligada à evolução do seu porto e das atividades com ela relacionadas.

 

Das origens à Balsa romana

Os dados conhecidos permitem estabelecer a continuidade da presença humana no local, hoje, ocupado por Tavira a partir do domínio muçulmano. Sabe-se, porém, que entre finais do século VIII a.C. e o século VI a.C., os fenícios - ou populações com grandes afinidades com eles - colonizaram este local, construindo uma espessa muralha na colina hoje designada de Santa Maria, da qual ainda restam vestígios.

Com a chegada do século VI a.C., a forte influência fenícia dará origem na região à Turdetânia, a qual se estendia desde o Estreito de Gibraltar até ao Cabo de S. Vicente. Deste período sobraram vestígios descobertos junto à atual Praça da República que documentam a atividade piscatória e conserveira dos turdetanos, nomeadamente, um molhe de acostagem, um armazém de ânforas com preparados piscícolas e, imagine-se, a mais antiga rede de pesca de atum conhecida até ao momento.

O período de dominação romana deixou marcas, a poucos quilómetros, a ocidente de Tavira - entre Santa Luzia e a Luz de Tavira -, na antiga Balsa (cerca de 30 a.C.), célebre cidade referenciada nas fontes antigas, cujo riquíssimo espólio arqueológico se encontra disperso por museus nacionais.

 

Tavira islâmica

Toda a vasta zona designada pelos muçulmanos de Al Garb al Andaluz (ou seja, a ocidente de Andaluz) foi ocupada por estes a partir do ano 712. Aquando da sua chegada, Tavira estaria deserta ou, na melhor das hipóteses, perdera o fulgor económico e mercantil de outras épocas. As primeiras notícias são do século XI e referem-se ao movimento do seu porto. Os muçulmanos conferem à urbe um novo fôlego, chegando esta a ser capital de um Reino Taifa e, durante período almóada, capital de um distrito. Durante este período reconstruíram-se as muralhas, que estão em parte conservadas. O mais famoso vestígio islâmico da cidade é o inusitado Vaso de Tavira, em cerâmica, de cariz popular, integrando figuras humanas e animais moldados, com ingénua profusão de pormenores, fazendo deste achado um dos mais eloquentes testemunhos da vida no Al Andaluz no século XI.

 

Da conquista cristã ao período da expansão portuguesa

Tavira é conquistada aos mouros em 1242 pela Ordem de Santiago, liderada por seu mestre D. Paio Peres Correia. Foi na colina de Santa Maria, cercada pelas muralhas do castelo, que os conquistadores cristãos consolidaram a sua presença civil, militar e religiosa. Aí se instalaram as primeiras igrejas, algumas reaproveitando o que restava das antigas mesquitas árabes. Nos séculos XIV e XV acentua-se a expressão urbana da vila, funda-se o primeiro convento - de franciscanos - e beneficiam-se as muralhas, florescendo o comércio marítimo com flamengos, ingleses, italianos, franceses, biscainhos e galegos.

A expansão portuguesa dos séculos XV e XVI faz de Tavira o mais próspero centro urbano do Algarve, beneficiando a urbe da sua importância estratégica para apoio, defesa e manutenção das praças conquistadas no Norte de África. Consequentemente, a vila é elevada a cidade, em 1520, por D. Manuel I. Atesta a sua riqueza o grande número de edificações militares, civis e religiosas que surgem por esta época, destacando-se as obras renascentistas do arquiteto André Pilarte.

 

O declínio

A partir da segunda metade do século XVI começa a ser indisfarçável o declínio económico e estratégico da cidade, agravado pelo abandono de algumas possessões no Norte de África, pelo domínio espanhol e pelo progressivo assoreamento do rio Gilão, contribuindo para a diminuição do movimento comercial do porto de Tavira. Mais tarde, fazem-se sentir os efeitos de uma peste devastadora (1645-1647) e da longa campanha da guerra da Restauração, retirando à cidade o protagonismo que adquirira no passado. Apesar da perda de importância, continuam a surgir na cidade novas construções - como os conventos dos paulistas e dos capuchos -, erguidas dentro do austero "estilo chão", estilo caracterizado pela sobriedade formal e pelo despojamento decorativo, valores que farão fortuna na arquitetura até ao eclodir do barroco no século XVIII.

 

Os anos de estabilidade

Os anos de estabilidade de D. Pedro II e D. João V parecem travar a estagnação da cidade. O abrandamento da agressividade do corso e da pirataria, bem como uma percetível recuperação económica, contribui para um crescimento longo e sustentado da população entre os finais do século XVII e meados do século XVIII. A cidade regista neste período o desenvolvimento da atividade das Ordens Terceiras, das confrarias ou irmandades, favorecendo a proliferação e o esplendor de igrejas e capelas, mandadas erigir e decorar pelos confrades. Neste contexto, é rica a arquitetura de Tavira realizada na época barroca, especialmente, devido às obras de Diogo Tavares de Ataíde (1711-1765), tido como o maior arquiteto do barroco algarvio - autor, entre outras, das remodelações do convento da Graça e da igreja e hospital do Espírito Santo.

 

O terramoto e o opúsculo do século XVIII

O terramoto de 1755 atinge alguns dos mais antigos edifícios da cidade como a igreja matriz de Santa Maria, que será reconstruída dentro do espírito neoclássico que caracteriza o fim do século XVIII. Após o sismo, a cidade passa a contar com a presença regular do Governador e Capitão General do Algarve, dotando-se equipamentos de apoio à sua política. Surgem, neste âmbito, o palácio do Governador no Alto de Santa Ana, um hospital militar (1761) e o Quartel da Atalaia (1795), destinado a alojar condignamente o regimento da cidade. No âmbito de uma política nacional de recuperação económica, o Marquês de Pombal funda em Tavira, em 1776, uma fábrica de tapeçarias, cuja produção, no entanto, foi precária e efémera.

 

Tavira de Oitocentos

A instabilidade proporcionada pelas invasões francesas, pelas lutas liberais e por uma grave epidemia de cólera não ajuda a cidade a ultrapassar o seu apagamento durante as primeiras décadas do século XIX. O campo tende a mandar na economia local, depois da redução significativa da pesca, em virtude do quase total desaparecimento do atum das áreas onde habitualmente surgia. O liberalismo introduzirá uma nova consciência social, levando à construção do Mercado da Ribeira (1885) e do Jardim Público (1889). Desaparecem, no entanto, partes consideráveis da muralha antiga da cidade e de antigos conventos, como o de São Francisco.

 

Tavira no século XX

O início do século assiste ao aparecimento da linha ferroviária (1905), que acabará por influenciar o espaço urbano com o rompimento de novas artérias de ligação ao centro da cidade. O regime republicano investe em novos equipamentos públicos, como a cadeia, um matadouro, um cemitério e a instalação de iluminação elétrica. Nas áreas limítrofes instalam-se unidades fabris de conserva de peixe. Durante o Estado Novo (1926-1974) surgem novos arruamentos e edifícios públicos, alguns seguindo os moldes oficiais: escolas da Porta Nova e da Estação, o Palácio da Justiça, o Posto Agrário e o antigo edifício dos Celeiros da Federação Nacional de Produtores de Trigo, entre outros.

 

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