Álvaro de Campos

 

O nome de Álvaro de Campos, atribuído a esta biblioteca, prende-se com o facto deste heterónimo de Fernando Pessoa ter nascido em Tavira, como refere na carta que escreveu a Adolfo Casais Monteiro, onde explica a génese dos heterónimos:

"[...] Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. [...]"

"Álvaro de Campos, é assim um poeta de Tavira, cidade onde passou a sua infância, cidade refletida nos seus poemas."

In: Lopes, Teresa Rita - Álvaro de Campos o engenheiro de Tavira. "Tavira", (17), Janeiro de 2006

"Ao criar Álvaro de Campos [...] Fernando Pessoa deu forma de gente aos seus medos e anseios ao mesmo tempo. Ousou, através dele, os gestos e os sonhos e as viagens e os excessos que o seu temperamento confessadamente abúlico lhe não permitiu viver.

Pessoa confessou - na sua própria pessoa mas também na de Bernardo Soares - a incompetência para a vida. Álvaro de Campos assumiu, em seu lugar, a vida de relação para que Pessoa se não sentia fadado: dirigiu aos jornais, artigos com referências escandalosas, até ao político Afonso Costa e, mais tarde, escrevia a Ofélia cartas fervilhantes de um humor de que Pessoa, quando o amor o dominava, não tinha sido capaz.

Na célebre carta a Adolfo Cascais Monteiro, escrita por Fernando Pessoa pouco antes de morrer, este apresenta Álvaro de Campos como o seu retrato melhorado, sob muitos aspetos, física e moralmente falando: "alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se". E especifica: "Tipo vagamente de judeu português" - como todas as fotografias de Pessoa sugerem. Fá-lo nascer em 1890, dois anos antes de si próprio, em Tavira.

Álvaro de Campos foi heterónimo que viveu a infância de Pessoa, adaptando-se à realidade algarvia: numa "quinta velha" a que às vezes chama "quintal", como aquele de que se fala na "Ode Triunfal": "Na nora do quintal da minha casa o burro anda à nora, anda à nora / E o mistério do mundo é do tamanho disto". Noutro poema recorda, com nostalgia: "Meu horizonte de quintal e praia!" É talvez nessa praia vizinha que evoca, mais tarde, uma rapariga de vestido "azulinho" e se espoja de cio " como um elemento inferior"...

Também o visionamos partilhando, na infância, o colo das "tias velhas" , duma criada e de uma avó que, às vezes, bordava a missangas, numa "ampla sala de jantar" em que "o relógio tiquetaqueava o tempo mais devagar". Depois chegava " o chá das noites sossegadas" - " o chá com torradas na província de outrora".

Campos é regularmente visitado, ao longo da sua vida, por essas recordações de infância. Às vezes, "as tias mortas" fazem chá de novo / na casa antiga da quinta velha.

Um poema de 1930 permite-nos assistir ao crescimento do menino nas suas sucessivas fases, desde criança, no colo das tias, até ficar homem, engenheiro, na Escócia e já cansado de aí estar. Vemo-lo, primeiro, feliz mas inconsciente da sua felicidade, na casa-colo das tias de que em breve seria apeado: surpreendemo-lo, em seguida, "errante na casa das "tias já mortas". É uma dessas tias que, na Ode Marítima", lhe cantava o romance da "Nau Catrineta" para o adormecer, na casa da sua "infância ao pé do rio" Gilão, assim se chama o rio que atravessa Tavira.

À procura de si, desse passado, o vemos desembarcar na sua cidade natal, num poema intitulado "Notas sobre Tavira", 1931, em que confessa: "Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu".

É evidente que não foi por acaso que Pessoa fez nascer Álvaro de Campos nessa cidade algarvia, berço de seu avô general, Joaquim António de Araújo Pessoa, e de seu tio Jacques Cesário de Araújo Pessoa, também militar de profissão.

Durante a sua estadia em Lisboa, entre 1901-02, o jovem Pessoa residindo então com a família em Durban, na África do Sul, deve ter tomado consciência, só então, de quem eram esses seus antepassados de que mais tarde, ao regressar definitivamente a Portugal, desenhará o brasão.

Numa nota autobiográfica que redigirá disse-se "descendente de fidalgos e judeus", pensando com certeza nesses Pessoas cuja origem remontava até ao início da nacionalidade. [...]

Depois de regressar definitivamente a Portugal, em1905, Pessoa visitava com alguma regularidade a família de Tavira, sobretudo a tia Lisbella (da Cruz Pessoa Machado), que residia no Largo da Alagoa, hoje nº 40 mas tinha também, na Asseca, a quinta da Mesquita, e, em Monte Gordo, "também possuiria propriedade sua", segundo M. Lucília Lencart, na sua obra "Do Algarve nasceu Fernando Pessoa", ed. da autora, 1987 (p.150)."

 

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