Património arquitetónico civil

Arraial Ferreira Neto

(Monumento de Interesse Público)

Localização: Praia das Cascas, junto à foz do rio Gilão. Tavira.

O Arraial Ferreira Neto está implantado no lado nascente da foz do rio Gilão, perto de Tavira, numa zona denominada Quatro Águas (confluência do Rio Gilão, do Canal de Cabanas, do Canal de Tavira e da barra de acesso ao mar através da ilha de Tavira), perto da Fortaleza do Rato.

Como conjunto edificado o Arraial constitui um vestígio de grande importância das atividades económicas da Ria Formosa e da região e um dos poucos testemunhos arquitetónicos das instalações de apoio à pesca do atum de toda a costa algarvia, constituindo um exemplo perfeito da organização social, urbanística e arquitetónica do Estado Novo.

O atual conjunto veio substituir as instalações anteriores, demolidas pelo mar no ano de 1943, existentes na praia do Medo das Cascas, na Ilha de Tavira, mesmo em frente ao local onde se localiza agora o Arraial Ferreira Neto. O conjunto foi projetado pelo Eng.º Sena Lino em 1943, tendo por base o conceito de uma unidade urbana autónoma onde pudessem viver cerca de 150 famílias, com a sua zona industrial, as suas oficinas e a sua zona habitacional e de lazer. O Arraial era o local onde se concentravam os pescadores e família, que durante a campanha aí viviam e cuidavam nas oficinas os materiais e apetrechos necessários à faina da pesca do atum.

O Arraial - que é todo murado, apenas com duas portas externas de serviço- foi construído de forma a separar inteiramente a parte industrial da reservada às habitações, que é constituída por dois largos e cinco ruas. No seu conjunto é um autêntico bairro social piscatório, com o aspeto de "uma aldeia de linhas rústico-portuguesas" onde habitariam 400 a 500 pessoas, pois oferecia instalações adequadas ao exercício da atividade industrial, assim como o conforto necessário ao descanso dos pescadores e das suas famílias. Possui edifício escolar, balneário, forno, capela, posto médico, sanitários públicos e clube, além de uma rede completa de esgotos e cinco cisternas. Possui ainda um cais de embarque apetrechado com um guindaste manual na foz do rio Gilão.

Os projetos de arquitetura desenvolvidos no auge do governo do Estado Novo são um exemplo da racionalidade formal típica da época, com o seu aprumo volumétrico e a sua métrica "moderna", o uso de "materiais portugueses" (pedra bujardada, telha de canudo, ladrilhos de barro, painéis de azulejo e portas de madeira pintada com aldraba ou postigo de reixa), e as técnicas mais atuais da altura - fundações diretas em alvenaria ordinária, escadas em betão, paredes de tijolo cheio rebocado e estruturas da cobertura em asnas de madeira.

Com o declínio das capturas de atum até 1970 e 1971, data das últimas campanhas, o Arraial deixa de cumprir a finalidade para que fora destinado. Data de então a sua desafetação definitiva, tendo-se convertido mais recentemente em unidade hoteleira.

Fonte: IGESPAR

 

Casa André Pilarte (Monumento de Interesse Municipal)

Localização: Rua Guilherme Gomes Fernandes, Tavira.

Casa quinhentista de provável autoria do célebre mestre-pedreiro André Pilarte, responsável pela construção da igreja da Misericórdia de Tavira.

Distingue-se a conceção da fachada principal, sobretudo pelo desenho dos vãos. No piso térreo subsiste parte de um vão manuelino com expressivas cantarias que formavam um arco contracurvado decorado com uma pequena face humana. O segundo piso é aberto por uma varanda renascentista, com um elaborado desenho datável de 1520-40.

Atualmente o edifício forma conjunto com a casa confinante construída na segunda metade do século XIX. A Câmara Municipal de Tavira procedeu à sua reabilitação em 2005.

 

Casas Raul Lino (Monumento de Interesse Municipal)

Localização: Avenida Dr. Mateus Teixeira de Azevedo, Tavira.

Os dois edifícios gémeos da Av. Dr. Mateus Teixeira de Azevedo (n.ºs 53 e 55) constituem uma memória da expansão urbanística ocorrida durante a primeira metade do século XX em Tavira, mantendo uma relação contextual com o meio urbanístico da zona, nomeadamente, com outras edificações do século XX que preenchem a via de ligação entre a cidade e a estação ferroviária que termina a avenida, casos da escola primária e do edifício do Posto Agrário, produtos nascidos na época de vigência do Estado Novo.

Constituem expressão única na cidade do génio criativo do arquiteto Raul Lino e das suas conceções de raiz tradicional, integrando-se dentro da noção da “moderna casa portuguesa” que deu origem a uma corrente arquitetónica com relevo nacional, sobretudo, durante a primeira metade do século XX.

Na génese das encomendas estão os herdeiros de Zacarias José Guerreiro, ilustre figura da história política e social da cidade, detentor dos cargos de Governador Civil do Distrito de Faro e de Administrador do Concelho de Tavira na segunda década de Novecentos.

Os edifícios resultam de um projeto datado de 1932 e destacam-se pelas suas qualidades conceptuais e estéticas, ambas refletindo o génio de Raul Lino e as particularidades comuns na sua arquitetura, nomeadamente, a sua preocupação de relacionar intimamente o espaço projetado com o gosto dos proprietários e de conferir àquele uma coerência com os processos construtivos e decoração próprios do sítio e do clima.

No caso presente traduz-se este aspeto na materialização da ideia de casa urbana do Sul. As artes decorativas foram valorizadas na medida em que contribuem para a conceção da arquitetura como um todo, registando-se, neste conceito de “obra total”, o contributo de reputados artistas da época (Battistini, Tom, Raul Xavier…) com obras que refletem as principais orientações estéticas que marcaram as décadas centrais do século XX português.

 

Mercado da Ribeira

Localização: Rua José Pires Padinha, Tavira.

O edifício foi inaugurado a 30 de junho de 1887, ao fim de dois anos de construção. Antes de ter edifício próprio o mercado realizava-se na Praça da Constituição (atualmente chamada Praça da República) em barracas e sob a arcada da Câmara Municipal. A decisão de construir o Mercado é justificada, entre outras razões, pela necessidade de maior controlo dos produtos transacionados e de melhorar as condições higiénicas.

De acordo com os registos arquivísticos, o acompanhamento da obra coube a António da Silva Meira que terá também desenhado a versão final do projeto.

Trata-se de uma construção de planta retangular, com piso único, estruturada interna e externamente a partir dos dois eixos definidos pelas entradas. A solução construtiva mista, vulgar na época, combina paredes em alvenaria de pedra, aparelhada nos cunhais, com uma estrutura metálica para suporte das coberturas do espaço interno, representando os materiais modernos disponibilizados sob o impulso da industrialização.

Dos elementos caracterização formal, salientam-se os portões duplos em ferro forjado e fundido, os frontões decorados, a cornija e balaustrada que rematam as fachadas, bem como uma série de pequenos elementos cerâmicos que as pontuam que constituem, porventura, uma referência regional.

O edifício funcionou como mercado municipal até 1999, tendo sofrido obras reabilitação e restauro no ano seguinte, com o fim de introduzir funções comerciais e culturais mais modernas.

 

 

Palácio da Galeria (Monumento de Interesse Público)

Localização: Calçada da Galeria, Tavira.

É um dos mais nobres edifícios de Tavira. Está implantado na “vila-a-dentro”, zona que assiste ao desenvolvimento da cidade desde os seus primórdios e onde estão presentes vestígios das épocas mais remotas.

No seu subsolo encontraram-se vestígios atribuídos à presença fenícia nos séculos VII-VI a.C., nomeadamente, um conjunto de poços com formas cilíndricas ao qual os arqueólogos atribuem significado religioso. Nestes “poços rituais fenícios” acharam-se materiais votivos que apontam para a existência de um “santuário” destinado a cerimónias dedicadas às divindades fenícias, particularmente a Baal, deus das tempestades.

A presença de molduras góticas em alguns muros do edifício testemunha o aproveitamento do espaço durante a época medieval, no entanto, ao que tudo indica, será só partir do segundo quartel do século XVI que o edifício adquire características de habitação nobre. As obras então realizadas introduziram uma loggia ou galeria, garantindo aos donos uma ampla visão panorâmica sobre parte da cidade e seus arrabaldes. Este elemento arquitetónico acaba por se tornar distintivo, passando a designar o edifício - Casas da Galaria - já em inícios do século XVII. Nele habitam os Aragão de Sousa, família da nobreza local ligada à defesa das praças lusas do Norte de África durante o século XVI.

A falta de descendentes desta família leva o Hospital do Espírito Santo de Tavira a tomar posse do edifício, em finais do século XVII, por disposição testamentária. Dado que nesta época o edifício precisava de grandes obras de manutenção, os responsáveis do hospital defendem que o edifício deveria ser cedido a figuras de elevado estatuto social e com consideráveis recursos económicos. O primeiro a interessar-se é o Brigadeiro Francisco Pereira da Silva Pacheco (sobrinho do bispo do Algarve), o qual toma posse do palácio, em 1737, por aforamento.

Volvidos poucos anos, o edifício será ocupado por outro magnata local, o Desembargador João Leal da Gama Ataíde, influente magistrado a quem se deve a promoção da grande obra de remodelação barroca do Palácio da Galeria a partir de 1746. A obra terá sido dirigida por Diogo Tavares e Ataíde, o mais importante arquiteto algarvio do século XVIII, refletindo-se a marca deste na composição barroca da fachada. Destaca-se o imponente portal encimado por uma janela de sacada envolta em volumosos enrolamentos acânticos. Também a galeria quinhentista que batizou o palácio foi restaurada pelo mestre Diogo Tavares, com a manutenção das colunas e capitéis antigos a que se sobrepuseram arcos novos com incisões decorativas.

Na sequência desta obra o edifício ganha expressão na paisagem citadina, fruto das suas generosas proporções, da modulação dos múltiplos telhados de tesoura e das distintas feições barrocas dos vãos. Sua monumentalidade e esmero artístico afirmam o prestígio e estatuto social do proprietário, cumprindo assim os desígnios do Dr. João Leal da Gama e Ataíde.

O palácio era dotado de amplas salas onde se adivinha a ocorrência de receções relacionadas com os negócios do desembargador. Note-se que, além de dono de vastas propriedades na região de Tavira, João Leal da Gama Ataíde detém um impressivo número de títulos e cargos de prestígio (Cavaleiro da Ordem de Cristo, Familiar do Santo Ofício, Provedor do Hospital do Espírito Santo, da Misericórdia de Tavira, etc.). A uma das salas ligava-se uma pequena capela com características de capela palatina, cuja entrada ainda hoje é marcada com uma cruz e com uma cercadura de azulejos setecentistas.  

Pela morte dos descendentes do desembargador, e após vários anos devoluto, o Palácio da Galeria passa a pertencer à Câmara de Tavira em 1863 cumprindo diversas funções ao longo de décadas: Tribunal Judicial, Tesouraria da Fazenda Pública, Escola Primária Masculina, Escola Técnica, Gabinete de Apoio Técnico, etc.

Nos últimos anos do século XX o edifício enfrenta graves problemas de degradação, sendo finalmente recuperado pela Câmara Municipal e adaptado para fins culturais, em 2001, segundo um projeto do arquiteto José Lamas. É atualmente o núcleo central do Museu Municipal de Tavira. Acolhe exposições que abordam a História e a diversidade do património concelhio, tendo ainda em atenção as novas expressões artísticas da contemporaneidade.

 

Ponte antiga sobre o rio Gilão (Monumento de Interesse Público)

Localização: Praça da República

As primeiras referências à ponte antiga de Tavira surgem na Crónica da Conquista do Algarve, texto medieval que relata conquista da localidade aos mouros no século XIII. Não obstante, na cidade existe a ideia generalizada de que a construção se deveu aos romanos.

Até ao século XVII, de acordo com uma conhecida gravura antiga da cidade, a ponte apresentava uma planta cruciforme em virtude da existência de um grande quebra-mar central, tendo chegado a ser habitada segundo o cronista Henrique Fernandes Sarrão que, por volta de 1600, assinala a existência de casas sobre o tabuleiro. Uma das entradas, do lado sul, era defendida por uma grande torre medieval, de planta octogonal. Esta funcionava como torre albarrã e estava adossada às muralhas da cidade por intermédio de uma arcada, tendo sido demolida em 1883.

A derrocada da primitiva estrutura, em 1655, determinou a obra de reconstrução que lhe conferiu o seu aspeto atual. Na ocasião, congregaram-se as entidades oficiais e o povo da cidade para garantir a reconstrução da ponte. O rei D. João IV enviou Mateus do Couto, arquiteto das Ordens Militares, que juntamente com o francês Pedro de Santa Colomba, engenheiro militar, foram os responsáveis pelo projeto. A Câmara de Tavira financiou a obra. Por fim, coube aos tavirenses contribuir com a mão-de-obra, orientada por três mestres-pedreiros vindos de Lisboa. O apoio da coroa e a congregação de esforços nesta empreitada, concluída em 1657, reflete a importância da ponte e a necessidade de a manter operacional no contexto da Guerra da Restauração, que opôs Portugal à vizinha Espanha entre 1640 e 1668.

A reconstrução determinou a eliminação do antigo quebra-mar central e a abertura, em seu lugar, de mais um arco, ficando a ponte composta, sob o tabuleiro, com sete arcos alternados por pegões reforçados por talha-mares angulosos. Na parte superior dos contrafortes abrem-se parapeitos murados delimitando áreas acessíveis.

Mais recentemente, a grande cheia de 3 de Dezembro de 1989 causou graves danos à estrutura. Um dos talha-mares, a montante, ficou praticamente destruído e dois arcos muito danificados, determinando que aqui tivessem lugar obras de restauro que duraram até finais de 1992.

O monumento terá sido palco de confrontos no período de crise dinástica após o reinado de D. Fernando I, entre 1383 e 1385. Foi sobre a ponte que um tal de Gonçalo de Mendonça, de Faro, com outros moradores da mesma vila defensores da causa do Mestre de Avis, se gladiaram com os partidários do rei de Castela, vencendo-os. O acontecimento é hoje assinalado num pequeno painel de azulejos situado à entrada do tabuleiro.

 

 

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