Centro histórico de Tavira

Local de cruzamento de diversos povos e culturas – fenícios, turdetanos, árabes, judeus – foi após a reconquista cristã sede de um concelho com crescente influência no reino de Portugal. Terra do Rei e de importância fulcral para os sucessos da expansão portuguesa para o Norte de África nos séculos XV e XVI, viu crescer o seu prestígio político, religioso e económico, permitindo desenvolver uma notável atividade construtiva e artística, de que é exemplo a célebre escola de arquitetura renascentista de André Pilarte, e mais tarde, durante o século XVIII, a atividade do mestre Diogo Tavares de Ataíde.

O intercâmbio de distintas épocas e sensibilidades culturais marcou indelevelmente a paisagem, a morfologia urbana, a arquitetura e a arte, no fundo, o seu desenvolvimento artístico em geral. E, não obstante algumas calamidades cíclicas – terramotos, cheias, crises político-sociais –, a herança patrimonial tem conseguido sobreviver, sendo hoje um exemplo de uma cidade mediterrânica fortificada, no limite da Europa, excecional pela qualidade formal, harmonia e coerência de alguns espaços urbanos, onde confluem modelos medievais e renascentistas, com um conjunto distinto de imóveis ilustrando várias épocas, usos, estilos artísticos e cambiantes regionais.

Dificilmente encontramos em Portugal, tão bem como em Tavira, os elementos históricos constitutivos de uma cidade de estuário atlântico-mediterrânica, com formas que muitas vezes foram assimiladas além-mar e reproduzidas localmente.

 

Uma colina de fenícios...

O Alto de Santa Maria, ligeira colina junto ao rio Gilão, foi primeiramente povoado no século VIII a.C. por gentes relacionadas com contexto expansionista fenício a Ocidente do Estreito de Gibraltar. O local permitia a boa visibilidade do tráfego comercial fluvial e das eventuais aproximações inimigas. Escavações arqueológicas dirigidas há poucos anos por Maria Maia e Manuel Maia no subsolo da pensão Netos revelaram parte da espessa muralha que cercava o antigo povoado. Os achados encontrados indiciam a vivência de um povo que cultivava a leitura e a escrita, e realizaria alguma produção metalúrgica em ferro e prata, eventualmente utilizada para negociar com outros povoados. Os “poços votivos” localizados onde hoje se situa o Palácio da Galeria indicam que este povo marinheiro teria aqui, muito provavelmente, um lugar reservado a práticas religiosas consagradas ao deus Baal.

Crê-se que o povoado fenício de Tavira terá sobrevivido e mantido alguma relevância económica e comercial regional entre os séculos V e IV a.C., acabando, mais tarde, por falir. A riqueza científica dos vestígios encontrados é, até agora, única em Portugal e deverá ser conjugada com o futuro núcleo museológico fenício.

...e árabes

Em Tavira são parcos os dados arqueológicos do período romano, indiciando que a colina de Santa Maria terá sido secundarizada face à proximidade de Balsa, a maior cidade romana do Sul do país, a escassos oito quilómetros de distância.

Os muçulmanos retomam a povoação de Tavira em finais do século X ou inícios do XI, bem como a vocação portuária e comercial do lugar. O topo da colina é refortalecido com o castelo, destinado a proteger o vau do Gilão que permitia o trânsito entre as duas margens, supostamente, antes da construção da ponte. O perímetro muralhado atinge cerca de cinco hectares, todavia, é patente que a extensão da cerca sofre mutações ao longo da presença islâmica, sensível às circunstâncias militares e à sucessão dos poderes (almorávida, taifas, almóadas). No topo estaria a alcáçova, concentrando os edifícios políticos e religiosos - duas mesquitas, posteriormente convertidas em igrejas católicas.

Partes da muralha islâmica ainda se avistam pela cidade, na Bela Fria por exemplo, mas também no interior das casas da atual praça da República. São muros constituídos por uma fortíssima amálgama de cal, areia e pedras revestidas por pedra aparelhada. Outra herança da muralha islâmica é a torre hexagonal que cai para a rua da Liberdade que, apesar de refeita, deve ser colocada em paralelo com outras torres poligonais ibéricas de época muçulmana.

Encontramos um vislumbre da cultura urbana deste período no que resta do bairro almóada descoberto no subsolo do convento da Graça, constituindo um dos melhores exemplos em território nacional do modelo de casas e ruas citadinas usado na Península Ibérica e no Magreb durante o período em apreço.

Todo o acervo de peças recolhidas neste e noutros contextos arqueológicos islâmicos espalhados pela cidade demonstram, não só as áreas que foram habitadas, mas também os hábitos e as posses dos seus residentes. Por vezes com algum fausto. Exemplo disso é o célebre Vaso de Tavira e todo um conjunto de artefactos menos conhecidos, mas igualmente admiráveis.

 

Um urbanismo multissecular

A conquista de Tavira pela Ordem de Santiago acontece em 1242. A mudança do poder tem efeitos na feição urbana. Dentro das muralhas deixa de caber a comunidade muçulmana, desalojada, passando esta a residir do lado exterior, diante da antiga e desaparecida Porta do Postigo. Aí ficava a mouraria, da qual a memória toponímica é ainda bem patente na rua dos Mouros, ou no Largo do Pocinho dos Mouros. 

Mais portas atravessavam a muralha. A principal, junto ao rio, chamava-se Porta da Vila, acrescentando-se a esta as portas da Alfeição, do Buraco, da Vila Fria, a Porta Nova contra o Cano e a Porta dos Pelames. Todas são definidoras das vias que estruturam a “vila-a-dentro”, caracterizada pela conjugação de uma malha regular e densa com uma área pouco construída e sem uma estruturação clara dos quarteirões.

Os reis portugueses promovem beneficiações na muralha. D. Dinis faz obras no castelo e D. Fernando terá alargado a cerca. Inevitável, no entanto, é a expansão do núcleo medieval para a zona exterior da cerca. Além da Mouraria, nascem os núcleos do alto de São Francisco, as Tercenas (ao longo da margem direita do rio) e um primeiro desenvolvimento na margem esquerda. Desenvolve-se também um eixo principal confinante com a muralha e definido pela Rua do Malforo (rua Miguel Bombarda), Rua Nova Grande (rua da Liberdade), praça da Ribeira (República) e a ponte, do qual depois progridem as áreas ribeirinhas nas duas margens.

Orlando Ribeiro realça justamente Tavira como raríssimo exemplo de cidade fluvial portuguesa que contaminou indiferentemente as duas margens, sem quebra de unidade. Salienta o facto de, em épocas recuadas, a ponte ter sido habitada, o que conferia uma imagem de edificação contínua que superava a natural divisão oferecida pelo rio.

Para tal contribuirá também o acelerado desenvolvimento urbano durante o reinado de D. Manuel I. É notável a urbanização que nasce na zona ribeirinha em finais da Idade Média, à ilharga da “vila-a-dentro”, denunciando princípios renascentistas e características fundamentais do urbanismo português de então. Designadamente, o chamado “urbanismo regulado” (baseado na regulamentação e não no desenho). Alinhando num esquema de rua-travessa, geram-se áreas que apresentam uma enorme regularidade quer no traçado das ruas, quer na sua própria base cadastral e altimétrica. Com uma malha regular orientada pelo rio, esta “nova” cidade articula-se habilmente com a “velha” através da Praça da Ribeira, com o campo através da Corredoura e com o mundo através do Gilão. 

Na definição do espaço urbano saliente-se o papel dos numerosos edifícios religiosos. Igrejas, capelas e conventos marcam o perfil de ruas, largos, servindo como pólos de referência para esses espaços. Aglutinam normalmente conjuntos urbanos e os seus adros potenciam a criação de zonas amplas (largos ou praças) propícias à afluência e concentração de fiéis.

 

Cidade das igrejas

É notável o conjunto de arquitetura religiosa que a cidade possui. Apesar de não ter sido escolhida para sede do Bispado do Algarve no século XVI, quando Silves se encontrava em decadência, Tavira manifesta uma enorme sensibilidade religiosa, erigindo inúmeros centros de devoção, o que é igualmente sintomático da sua importância e prosperidade aos longos dos séculos.

Hoje em dia são vinte e uma igrejas. Com efeito, ainda mal terminara a conquista do lugar pela Ordem de Santiago e já este contava com as matrizes de Santa Maria e de Santiago, em resultado do aproveitamento e adaptação das antigas mesquitas árabes.

O desenvolvimento urbano será sempre pontuado pela Igreja, seja através das matrizes, dos templos de ordens terceiras e confrarias ou através de instalações mais amplas, como os conventos. A Igreja também beneficia da próspera conjuntura socioeconómica dos séculos XV e XVI, associada ao crescimento demográfico, à expansão urbana e ao período em que o porto de Tavira era o de maior irradiação para a defesa e manutenção das praças lusas do Norte de África. A arquitetura e a produção artística para ornamento dos templos conhecem nestes séculos uma atividade considerável através das paróquias, ordens religiosas, irmandades e confrarias. Nota-se, aliás, que a origem de algumas casas religiosas reflete a estreita relação de Tavira com o projeto de expansão da coroa para o Norte de África, caso do convento de N. Sr.ª da Piedade, fundado por D. Manuel I em ação de graças pelo levantamento de um cerco mouro a Arzila; ou do convento agostinho de Nossa Senhora da Graça, fundado em Tavira após uma tentativa frustrada de o fazer erguer em Azamor.

A diminuição da importância da cidade nos séculos posteriores não afeta sobremaneira o ritmo de fundação de novos edifícios religiosos, os quais são marcados com mais ou menos austeridade de acordo com as flutuações estilísticas e temporais. Os tavirenses manterão a proximidade aos centros de devoção. Exemplo disso são os anos de estabilidade de D. Pedro II e D. João V, enquadrados pela exultação barroca da Igreja contrarreformista, favorecendo um novo período de grande atividade na construção de igrejas e na ornamentação das existentes.

Os sentimentos anticlericais que caracterizam os séculos XIX e XX traduzem-se na secularização ou desaparecimento de alguns templos, fazendo reduzir para vinte e um os cerca de vinte e cinco anteriormente existentes. O saldo histórico apresenta-se, ainda assim, extremamente vantajoso para a cidade.

É de realçar a riqueza artística acumulada ao longo de séculos nestas igrejas, a pluralidade de estilos, disciplinas e artistas que nelas se encontram. A qualidade dos vestígios góticos e manuelinos da matriz de Santa Maria ou do antigo convento de São Francisco, a elegância personalizada do renascimento na Misericórdia do mestre André Pilarte, a força do “estilo chão” nas igrejas de São Paulo ou da Graça ou ainda exuberância decorativa dos espaços barrocos do Carmo ou São José, definem em conjunto, nestes ou noutros templos da cidade, todo um percurso sugestivo da arte portuguesa, das suas cambiantes estilísticas e interpretações locais.

 

Herança militar

A história de Tavira encontra-se indissoluvelmente ligada à atividade militar. A preocupação com a defesa de um território e com a segurança de uma comunidade que, como vimos, atingiu períodos de grande relevância estratégica e económica, manifesta-se na construção de diversas infraestruturas e na fixação de corpos militares.

Já aqui foram elencados alguns monumentos castrenses que são marcos de identidade na definição do traçado e da estrutura urbana do aglomerado. A muralha fenícia fixou o local e determinou o seu desenvolvimento posterior. O castelo medieval predomina e testemunha aspetos particulares que se referem aos conturbados anos da reconquista cristã e à afirmação da soberania portuguesa sobre o território do Algarve.

Na orla costeira, as ruínas do Forte de Santo António e a Fortaleza de São João de Cabanas são a memória de um tempo em que o perigo vinha, essencialmente, do mar. Quer o projeto de expansão além-mar, quer a dinâmica da Guerra da Restauração (1640-1668) são responsáveis pelo aparecimento de mecanismos defensivos na costa, tendo em atenção a proteção das pessoas e das pescas face aos constantes ataques de piratas mouriscos ou de corsários encorajados pelos rivais europeus.

Mas não só de fortificações se compõe a arquitetura militar de Tavira. A presença regular de corpos militarizados e a flexibilidade dos engenheiros militares – que amiúde se assumem como arquitetos de todo o tipo de edifícios utilizados pelas tropas – justificam a construção de interessantes equipamentos de apoio. São os casos do antigo hospital militar da rua dos Mouros (1761) e do imponente Quartel da Atalaia (1795); sendo ainda de destacar um dos mais distintivos símbolos de Tavira: a ponte antiga sobre o Gilão, concebida segundo modelos da arquitetura militar, fruto da reconstrução de 1657 dirigida por Mateus do Couto e Pedro de Santa Colomba, dois homens ligados ao exército.

 

Arquitetura civil

Em Tavira o espaço urbano é de raiz medieval e quinhentista mas grande parte dos seus edifícios remonta aos séculos XVII, XVIII e XIX. Apesar de alguns golpes, o casario urbano mantém em boa medida uma imagem consistente do seu passado, devendo merecer todos os cuidados na sua preservação e reabilitação.

São inúmeras as qualidades destes edifícios em que a pedra calcária, a cal, a cerâmica, o ferro e a madeira se conjugam para formar volumes plenos de carácter e valor identitário. O século XVI fixa um modelo de casa que perdura sem grandes alterações até ao século XIX com várias notas dominantes e distintivas. Além dos materiais tradicionais, assinale-se a tendência para uma escala humana (2 ou 3 pisos), a composição simples mas aberta a valores eruditos e às novidades depois de alguma transformação local, e ainda uma notória preocupação pela decoração dos vãos, platibandas e chaminés – características dominantes da arquitetura regional.

Uma espiral de elementos estruturais e compositivos, de detalhes e características singulares, forma grande parte do interesse e valor da cultura arquitetónica de Tavira. Lembramos as janelas e portas perfeita e ritmicamente alinhadas nas fachadas; o fino lavor de cantarias de vãos com seus ornatos elegantes de épocas distintas; os desenhos das caixilharias ou dos gradeamentos das janelas de sacada; as platibandas, algumas exuberantemente trabalhadas e coloridas…

Dentre todas as marcas identitárias há duas de reconhecido destaque. Em primeiro lugar, os tradicionais “telhados de tesouro” – coberturas de quatro águas, francamente inclinadas, revestidas internamente com caniço e externamente com telha de canudo. O seu nome advém da ossatura interna de madeira geralmente chamada tesoura. Dado que, em norma, cada divisão da casa é coberta por um telhado de tesouro é comum observarem-se edifícios com telhados múltiplos, oferecendo ao céu de Tavira uma aparência muito peculiar.

Serão um dos derradeiros vestígios da época das grandes navegações, em cujos primórdios Tavira largamente participou. Os aventureiros que daqui partiram a apoiar a empresa dos Descobrimentos e da expansão portuguesa descobriram paragens distantes, desde as ilhas atlânticas, passando pelas praias e minas africanas até às formidáveis novidades asiáticas. No regresso, estes emigrantes exibem avidamente as novidades, a riqueza e a experiência de distintas realidades culturais. E assim, Tavira, porto de partida e chegada de muitas viagens, adota uma forma de cobertura vinda da Ásia das monções e que em nada o clima algarvio justifica.

Em Tavira os telhados múltiplos de tesouro chegaram aos nossos dias resistindo ao tempo, às modas e às catástrofes. Fazem parte do património prestigioso da cidade, todavia, são dos mais ameaçados por ruidosas adulterações ou por desuso.

Outro destacado elemento característico é o emprego de rotulados de madeira na proteção dos vãos – as tradicionais portas ou janelas de reixa. Traduzem uma preocupação pela ventilação, arejamento e defesa da intimidade da habitação, surgindo por isso, maioritariamente, nos pisos térreos. As suas formas geométricas animam as fachadas. Em Tavira parece ter havido uma maior utilização das reixas relativamente a outras localidades algarvias, razão pela qual são assumidas como marcos culturais da cidade. Apesar disso, hoje são em menor número, sob a ameaça de desuso.

A preponderância de uma casa-tipo de Tavira não invalida que na cidade a arquitetura fique alheia aos diferentes contextos cronológicos e movimentos arquitetónicos. Há cambiantes específicas de várias épocas na forma dos vãos, dos gradeamentos ou na aplicação de certos materiais. É sobretudo nos séculos XIX e XX que as mudanças são mais significativas. Como no resto do país, pode referir-se a renovação das formas tradicionais durante o período do Romantismo, no século XIX, através de modelos arquitetónicos ecléticos e exteriores à tradição de habitação mais vernácula. O tema mais corrente remete para o designado chalet. Já o século XX será marcado por soluções dentro da chamada Arte Nova, da “Casa Portuguesa” e do modernismo, destacando-se dentro destas duas últimas correntes, respetivamente, as obras na cidade dos distintos arquitetos Raul Lino e Manuel Gomes da Costa.

Independentemente da antiguidade/modernidade ou da erudição/singeleza dos edifícios vem sempre à tona um passado histórico e arquitetónico de qualidade e interesse, que confere à cidade uma personalidade rara no panorama urbanístico português e um excecional campo de estudos. Joga-se hoje o problema da sua autenticidade e integridade, sendo importante o empenho dos tavirenses para inverter certos hábitos de reconstrução que desvirtuam a sua leitura. A prática de reabilitações criteriosas e fundamentadas, dando particular atenção à recuperação de materiais e técnicas tradicionais deverá ser sempre o exemplo a seguir.

 

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